Somos parte de um grupo significativo de mais de 300 pessoas,
entre homens, mulheres, jovens, adultos, de todas as etnias,
confissões religiosas e político-partidárias,
engajados no projeto de transformação do País,
através da Educação Popular. Ao longo de
três dias, nos reunimos na cidade de Lins, interior do
Estado de São Paulo, para refletir e debater em conjunto
a relação entre a "A Educação
Popular e a Gestão do Conhecimento", durante as
diversas sessões do III Fórum Regional de Educação
Popular do Oeste Paulista (III FREPOP) e do I Encontro Paulista
de Tecnologia Social (I EPTS), entre os dias 25 e 27 de julho
de 2005.
Representamos segmentos diversos dos movimentos
sociais: da luta pela terra, passando pelos direitos das crianças,
adolescentes, mulheres e idosos; do respeito aos negros e a
sua cultura, dos trabalhadores vitimados pelas doenças
e acidentes de trabalho, etc. Somos originários ainda
da administração pública e privada tanto
na esfera municipal, estadual e federal; de inúmeras
organizações não governamentais e não
apenas de universidades do Estado de São Paulo, mas também
de outros cantos do País. Além dos participantes
de Lins, viemos de mais 30 cidades e de 6 Estados diferentes
da Federação. Deslocamo-nos de todos os cantos:
de Araçatuba, Araraquara, Assis, Bauru, Botucatu, Franca,
Cafelândia, Campinas, Getulina, Guarantã, Iaras,
Jundiaí, Lins, Marília, Penápolis, Piracicaba,
Pirajuí, Piratininga, Presidente Alves, Presidente Prudente,
Promissão, Osasco, Ribeirão Preto, Santo André,
São José do Rio Preto e São Paulo. De fora
do Estado de São Paulo, viemos também de Belo
Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Florianópolis
(SC) e Rio de Janeiro (RJ).
Diante do quadro de grave e complexa crise de
natureza político-institucional, que atinge os partidos
e o próprio governo do nosso País, trouxemos para
cá as preocupações e as angústias
que nos afligem. Refletimos que a centralização
e a burocratização das decisões, associadas
ao progressivo afastamento das instâncias governamentais
em relação às aspirações
das camadas sociais que as elegeram e a ampliação
do esquema de corrupção do Estado estão
na raiz dessa crise. É, sobretudo, uma crise ética,
de confiança no compromisso assumido, na imagem construída.
Entre os ingredientes desse mal-estar, acentua-se o desmonte
de instituições, por nós mesmos edificadas
muitas vezes com sangue, suor e sofrimento, ao longo destas
últimas três décadas, que, até há
pouco tempo, pareciam representar os anseios populares com vistas
à superação, por um lado, das imensas desigualdades
econômicas e sociais existentes no País e, por
outro, a construção de uma nova relação
baseada na solidariedade, na fraternidade e na participação.
Tudo isso parece ruir diante de nós!
Entretanto, apesar do revés que atravessamos,
nossa utopia continua viva. Essa crise fortalece a necessidade
de transparência dos atos dos partidos políticos,
governos e de participação popular nas diversas
instâncias de poder. Vale a pena continuar lutando e acreditando
que se juntarmos as forças das mulheres, jovens, idosos,
negros, trabalhadores e de todos os explorados por este sistema
seremos capazes de criar um novo mundo. Sabemos que temos coragem
e inteligência suficientes para reencontrar as ferramentas
e reconstruir o caminho. Se o fizemos no passado, seremos capazes
de refazê-lo a partir de agora. Por isso, queremos, publicamente,
aqui reafirmar nossos compromissos:
1) acreditamos firmemente que a Educação
Popular, continuará a ser o grande elo que nos une, construída
a partir das relações entre os sujeitos das classes
populares que desejam se educar mutuamente, num espaço
de liberdade e cooperação, com vistas a compreender
o mundo em que vivem, ampliando sua participação
cidadã nas decisões que afetam os destinos do
País e engajando-se na sua transformação;
2) pensamos, também, que a Educação
Popular poderá ser mantida como projeto de um governo
compromissado, para além das diversidades de suas siglas,
com os interesses estratégicos das classes populares,
como forma de superação da atual "educação
bancária" e excludente, com o objetivo de fortalecê-las
e empoderá-las de instrumentos institucionais que garantam
a transparência e o controle social na captação
de recursos, na elaboração e na aplicação
das políticas públicas, afora a participação
direta e efetiva nas instâncias diretivas do País;
3) queremos, olhando juntos na direção
de nosso objetivo maior, permanecer articulados, envolvendo
mais pessoas e instituições nesse sonho, conservando
e respeitando nossas características próprias,
nossas formas específicas de organização
e nossa diversidade de pensamento;
4) comprometemo-nos, finalmente, a manter, ampliar e divulgar
a realização de eventos como o III FREPOP - I
EPTS, que se constituem, atualmente, em espaços privilegiados
de contatos e trocas entre nós, mas, também, de
repensamento de nossas práticas e concepções,
propondo-nos a zelar para que as políticas públicas
não se concretizem de costas para o povo, como tem acontecido,
mas incorporando a rica criatividade dos grupos populares que
demonstram eficiência e inventividade para sobreviver
ao processo de exclusão social, econômico-cultural
e, por extensão, educacional das camadas populares.
Lins (SP), 27 de julho de 2005.